Interação de sala de aula de/na língua adicional como meio e fim: o que isso quer dizer? – Sphere | International School

Interação de sala de aula de/na língua adicional como meio e fim: o que isso quer dizer?

O título deste texto é inspirado no texto de Joan Kelly Hall (2011), em que a autora defende que na sala de aula de (e eu ouso aqui expandir a discussão para todas as salas de aula de ou em) línguas adicionais o modo como interagimos com nossos alunos funciona tanto como o modo de ensinar (e de proporcionar momentos de aprendizagem), como o próprio fim da aprendizagem. Quer dizer, ao realizarmos uma aula, é por meio da interação que nossos alunos aprenderão a língua e é por meio dessa mesma interação que eles aprenderão a interagir nessa língua. Isso implica dizer que as ações que eles aprenderão a fazer na língua adicional são decorrentes das oportunidades de participação que damos a eles em nossas aulas. Por exemplo: se nas nossas aulas sempre convidamos nossos alunos a responderem perguntas, muito possivelmente as ações aprendidas por eles sejam relacionadas a produzir frases. Se os convidamos a compartilhar experiências, possivelmente as ações aprendidas se tornem mais amplas. Nessa linha de raciocínio, não podemos esperar que nossos alunos aprendam habilidades interacionais mais complexas se sempre os convidamos a participar da mesma forma: respondendo perguntas feitas por nós mesmas, as professoras.

Pensar na diversidade de ações que convidamos os alunos a desempenhar em nossas salas de aula em tempos normais já é bastante desafiador, em tempos de pandemia, de ensino mediado por telas, essa dificuldade é elevada a uma potência muito alta. Dentre os muitos motivos que poderiam ser listados aqui para explicar tal dificuldade, trarei para este texto o fato de que no ensino mediado por telas perdemos algo central para a interação: o direcionamento de olhar. Na sala de aula presencial, convidamos a participação pelo direcionamento de olhar, os alunos sentem no olhar do outro o convite para a fala e seguimos muitas pistas multimodais (como movimentação do tronco ou da cabeça) para interpretar quem está ou não acompanhando a aula ou mesmo quem deseja ou não falar. Grande parte desses elementos se perdem em frente à tela, já que todos estamos (com sorte) ou olhando para a tela ou olhando para a câmera.

Considerando todas essas questões, muito facilmente a aula on-line se torna um momento em que os professores fazem perguntas e os alunos abrem seus microfones para produzir respostas, esclarecer alguma dúvida ou, quando muito, contar algo que seja pertinente. Tendo isso em mente, que reflexões podemos fazer ao planejar uma tarefa pedagógica a ser realizada em aulas on-line?

Que posições de enunciação essa tarefa possibilita que meu aluno assuma?

Pensar sobre o modo como os alunos poderão se posicionar ao realizar uma atividade pedagógica nos fornece uma boa dica sobre as possibilidades de participação que proporcionamos. O aluno está sendo convidado a se expressar e opinar ou a apenas fornecer uma informação? A produção (ou reprodução) de informações pode ser um passo dentro do percurso, mas se torna muito limitadora se for o fim. A atividade que expande as possibilidades interacionais, em geral, convida o aluno a assumir diferentes papéis em relação a textos, fatos ou imagens.

Que ações os alunos deverão fazer a partir das produções dos colegas?

Após ouvir a resposta dos colegas, o que os alunos farão? Por que eles precisam, necessariamente, ouvir as produções dos colegas? A consigna da tarefa pedagógica apresenta um propósito para os demais alunos serem interlocutores dos colegas? Essas questões ajudam a analisarmos o quanto nossas atividades propiciam interação genuína ou protocolares. Se não projetamos o que esperamos que os alunos façam a partir das produções ou falas dos colegas, corremos o risco de termos respostas “tarefereiras”.

Há mobilização de informações levantadas para a realização de uma ação? Ou o levantamento de informações tem um fim em si mesmo? Há autoria?

Quando o desenho da tarefa não prevê um motivo para utilizar informações levantadas ou mesmo uma situação em que o aluno seja autor de algo, muito possivelmente a tarefa não mobiliza os demais alunos para a interação. Assim, é sempre relevante pensar no que os alunos farão com as informações lidas/coletadas enquanto assistem a um vídeo e o quanto eles poderão transformar essas informações sendo autores.

Interação como meio e fim (também) no ensino remoto: um convite à ação

Seria possível levantar muitas outras questões que podemos fazer ao planejarmos uma tarefa, mas creio que essas sejam um bom começo para refletirmos sobre as oportunidades de participação e, consequentemente, de aprendizagem que proporcionamos em nossas aulas on-line. Pensar em estratégias de interação e meios para tirar o aluno do lugar de respondedor e convidá-lo a fazer outras ações na aula mediada pelas telas é desafiador, mas considerando que as aulas on-line ainda devem nos acompanhar por um bom tempo, é crucial pensarmos nas oportunidades de participação que criamos e nos papéis que nossos alunos assumem na sala de aula.

Agora convido as professoras e professores que lêem este texto para refletir: que ações seus alunos de fato fazem mediante a língua adicional na sua sala de aula on-line? Quais perguntas você (se) faz para analisar as tarefas pedagógicas que você planeja?

Paola Guimaraens Salimen

Tem doutorado e mestrado em Linguística Aplicada (UFRGS). Possui experiência com pesquisa interpretativa, pensando a escola como uma ecologia em oposição a um ambiente estéril em que variáveis possam ser isoladas. Atualmente, atua como coordenadora pedagógica de Línguas Adicionais em escola regular nos três segmentos: Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Além disso, ministra aulas de metodologia de pesquisa em cursos de pós-graduação lato relacionadas à educação e Educação Bilíngue. Tem ampla experiência como professora de todos os segmentos, escrita de materiais didáticos e formação de professores. Acredita no papel da Educação Bilíngue para a formação de sujeitos críticos, interculturais e agentes transformadores da nossa sociedade.

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