Você conhece a diferença entre Bilinguismo e Educação Bilíngue? – Sphere | International School

Você conhece a diferença entre Bilinguismo e Educação Bilíngue?

Existe uma noção socialmente construída de que no Brasil somente se fala o português e desconhece-se o fato de que muitas outras línguas foram e são faladas, tais como as mais de 200 línguas indígenas, a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), as línguas de fronteira, de comunidades de imigrantes e migrantes de crise, entre outras. Quando falamos em aprendizagem de línguas adicionais, portanto, é importante dizer a quais línguas estamos nos referindo.

As escolas bilíngues de línguas de prestígio são aquelas que oferecem instrução em duas ou mais línguas reconhecidas mundialmente como línguas de prestígio, como por exemplo, inglês, alemão, italiano, francês, espanhol etc. Em sua maioria, as escolas bilíngues brasileiras optam por instrução em português e inglês, por ser esse o idioma mais falado em contextos globais, nas interações sociais ou profissionais, entre pessoas que não falam a mesma língua.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) menciona o uso da língua inglesa como língua franca, ou seja não apenas como a língua falada na Inglaterra, Estados Unidos ou Canadá, por exemplo, mas a língua comum adotada por pessoas que regularmente usam idiomas diferentes para se comunicarem entre si. Nesse sentido, a BNCC compreende a importância de aprender inglês para se ter acesso ao mundo globalizado. O que nos parece desafiador, no entanto, é o fato da língua inglesa ser inserida como componente obrigatório somente a partir dos anos finais do Ensino Fundamental. Nesse ciclo, as crianças entram na adolescência e não se contentam com um ensino descontextualizado e pautado na gramática, no famoso verbo To Be. As aulas, na grande maioria das escolas regulares, são oferecidas em português, as lições são apresentadas em livros didáticos, com foco em leitura e escrita, na aprendizagem de vocabulário e estrutura da língua.

Sabemos da complexidade e dos desafios do ensino público, mas se a língua inglesa fosse introduzida na Educação Infantil ou anos iniciais, o engajamento dos alunos poderia ser bem maior, pois ao chegarem aos anos finais, já terão tido uma base necessária para dar conta de atividades mais complexas e adequadas ao seu desenvolvimento cultural e cognitivo. Além disso, se as aulas fossem conectadas a práticas sociais, com oportunidades de exploração de diferentes recursos multimodais, os resultados poderiam ser mais otimistas.

Existe melhor idade para aprender outra língua?

Em se tratar da melhor idade para o início da aprendizagem de línguas, lembramos que a criança pequena pode aprender uma ou mais línguas adicionais desde muito cedo. Famílias bi/multilíngues vivenciam essa realidade cotidianamente e escolas bilíngues ou internacionais também oferecem essa possibilidade.

A adaptação a um novo idioma na escola bilíngue é, antes de mais nada, uma adaptação a um novo ambiente de aprendizagem e essa relação precisa ser muito bem cuidada e direcionada a cada criança de modo personalizado, pois algumas “tiram de letra” e outras podem ficar um pouco introvertidas ou inseguras. A língua, portanto, é um dos aspectos a se ter em mente no momento da adaptação. Nas escolas bilíngues, se a criança apresentar sinais de desconforto ou insegurança, será necessário que a professora ofereça acolhimento da melhor forma possível, incluindo o uso da língua materna da criança, quando possível. Depois de pouco tempo já será possível utilizar a língua adicional em grande parte das interações que fazem parte da rotina escolar bilíngue. A criança que aprende duas ou mais línguas desde cedo, de modo geral, saberá diferenciar com quem ou quando ela deve falar uma língua ou outra. Nos estágios iniciais de aprendizagem de línguas adicionais com crianças pequenas, o “mixing” (mistura) de línguas é muito comum e precede as etapas de construção de frases simples até que a criança construa seus pensamentos integralmente em língua adicional.

Quanto tempo leva para aprender?

O tempo necessário para o desenvolvimento da fluência em língua adicional varia de aluno para aluno, mas de modo geral, em escolas bilíngues, em até dois anos os alunos demonstram usar a língua para situações do cotidiano escolar. Para que o aluno utilize a língua para acessar ou produzir pensamentos mais abstratos e cognitivamente elaborados são necessários em média 5 a 7 anos. Esses tempos coincidem com estudos feitos pelo linguista Jim Cummins (1979), no Canadá sobre BICs e CALP (Basic Interpersonal Communication Skills e Cognitive Academic Language Proficiency). Apesar de haver uma clara interrelação entre a linguagem social e a acadêmica, o desenvolvimento linguístico deve ser planejado como um processo contínuo. Nesse sentido é importante considerar a importância da educação bilíngue de modo contínuo. Apesar de muitas famílias priorizarem a educação bilíngue na Educação Infantil e anos iniciais, será nas etapas seguintes que o aluno fará novas conexões e usos da língua adicional, potencializando ainda mais seu desenvolvimento linguístico, cognitivo e cultural.

Sabemos que crianças e jovens podem aprender inglês de várias formas, em escola de idiomas, em programa de intercâmbio ou viagens ao exterior, por exemplo. No entanto, quando se trata de avaliar o ensino de línguas na escola bilíngue, vale ressaltar a diferença entre bilinguismo e educação bilíngue. Uma pessoa bilíngue pode aprender novos idiomas sem nunca ter passado por uma escola bilíngue. Mas qual o diferencial da Educação Bilíngue? Além de possibilitar a aprendizagem da língua adicional de modo mais contextualizado, integrado com as várias áreas do conhecimento, a educação bilíngue favorece a ampliação de habilidades essenciais para o século 21, tais como fazer transferências e conexões, avaliar diferentes perspectivas e formas de conhecer, ser e viver. As escolas bilíngues e internacionais, quando trabalham sob uma perspectiva bi/multilíngue e multicultural, expandem as possibilidades de aprendizagem e pensamento dos alunos, aproximando-os de diferentes culturas e epistemologias.

Quando a criança ingressa na escola bilíngue desde pequena, o processo é mais facilitado pela flexibilidade para aprender de modo mais aplicado e contextualizado. Nessa etapa, a criança está aprendendo a “nomear o mundo” e o faz em duas ou mais línguas quase que simultaneamente. Quando crianças iniciam suas jornadas escolares em escolas bilíngues mais tardiamente, após o 2º ou 3º ano do Ensino Fundamental, existem questões que devem ser planejadas para que a transição para o ambiente bilíngue seja apoiado de modo personalizado, uma vez que nessas sérias espera-se que os alunos já estejam lendo e escrevendo em língua adicional. É possível que o aluno ingresse na escola bilíngue em qualquer série, mesmo nos anos finais ou no Ensino Médio, mas deve haver um diálogo com os pais sobre cada aluno e seu contexto e expectativas de aprendizagem. Alunos mais velhos têm aspectos cognitivos mais desenvolvidos, o que favorece o processo de transferência e agilidade na aprendizagem. Mas quando se fala em aprender línguas e aprender por meio de línguas, não podemos deixar de valorizar os aspectos socioemocionais e singulares de cada aluno, que criam a base para aprendizagens sólidas e duradouras.

Existem muitas definições de bilinguismo e de sujeito bi/multilíngue, em geral, como aquele que usa uma ou mais línguas para se comunicar, em contextos diversos e com diferentes graus de habilidade. Na Sphere International School,  nos alinhamos com a noção do bi/multilinguismo como um processo multidimensional de uso de diferentes recursos linguísticos e semióticos dos sujeitos para a construção de sentido com o outro. Sendo assim, o sujeito bilíngue não é representado pela simples somatória de dois monolíngues. O ensino bilíngue integrado requer intencionalidade pedagógica e tempo de planejamento pois pressupõe considerar a identidade bi/multilíngue dos alunos, permitindo que façam uso de seus recursos construídos em uma língua ou outra, de modo fluido e dinâmico, para construir sentido e ampliar aprendizagens.

Susan Clemesha

Bacharel em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo e mestre em Linguística Aplicada pela PUC-SP. Diretora acadêmica da rede Sphere International School, atua na área de formação de professores e desenvolvimento curricular para a Educação bilíngue (português e inglês) e internacional. Integra o grupo de pesquisa GEEB (Grupo de Estudos em Educação Bilíngue) e o LACE (Linguagem em Atividade no Contexto Escolar), ambos da PUC-SP.

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