Defasagem da aprendizagem na pandemia: como a avaliação pode ajudar nesse cenário? – Sphere | International School

Defasagem da aprendizagem na pandemia: como a avaliação pode ajudar nesse cenário?

A pandemia mudou drasticamente o cenário educacional em todo o mundo, e seus efeitos são sentidos em várias áreas. Escolas fechadas, ensino remoto e ensino híbrido fazem parte do nosso dia a dia e trazem incertezas a esse cenário. Há, por outro lado, uma constatação inequívoca: já se verificam defasagens na aprendizagem e o consequente impacto nos níveis de rendimento acadêmico dos nossos alunos. Diante da diminuição no tempo de instrução e da desigualdade no acesso à tecnologia, a comunidade escolar precisa de estratégias para mapear as áreas em que os alunos necessitam de suporte, bem como para planejar e implementar ações que propiciem esse suporte o mais rapidamente possível.

Em um documento lançado em dezembro de 2020, chamado “Lições da COVID-19 para a educação”[1], a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE ou OECD em inglês) defende a importância de tratarmos com urgência as defasagens na aprendizagem dos alunos para minimizá-las. Para isso, apresenta três caminhos: o primeiro é realizar intervenções personalizadas na aprendizagem dos estudantes, a partir de um olhar sensível às necessidades individuais, e da capacidade de adaptação às diferenças entre eles. Isso significa propiciar ao aluno oportunidades autônomas e colaborativas de aprendizagem, como planos de estudo ou tutorias – individualizadas ou em pequenos grupos, sempre a partir de objetivos estabelecidos pela escola ou pelo sistema educacional. O segundo caminho apontado pelo documento é a oferta de instrução especializada ou adicional em casos específicos, ou pelo aumento no tempo de instrução oferecido ao aluno, ou até pela mobilização de um(a) profissional especialmente preparado para dar tal suporte. O terceiro e último caminho refere-se à elaboração e disponibilização de recursos adicionais aos educandos, a partir do mapeamento de prioridades de aprendizagem e dos principais componentes, observando onde ocorre a defasagem.

Nesse esforço para minimizar os impactos da pandemia na aprendizagem, a OCDE também recomenda que repensemos o processo avaliativo como um todo, de forma que o progresso do aluno possa ser monitorado por ele mesmo e por todos os envolvidos – pais, professores e gestores. É preciso, portanto, ter dados sobre seu desempenho. Diante da impossibilidade de coletar tais dados presencialmente, pelo menos em curto prazo, a sugestão é lançar mão da avaliação diagnóstica e de instrumentos avaliativos típicos da chamada avaliação alternativa. Portfólios e autoavaliação, por exemplo, são opções para assegurar que as necessidades dos alunos sejam atendidas. À medida que os alunos recebem suporte, a avaliação contínua – de caráter formativo, propicia excelentes oportunidades para oferecer feedback, estratégia que exerce a função retroalimentadora de informações na direção do aluno e também na do professor.

 

[1] OECD. Organisation for Economic Co-operation and Development. Lessons for education from COVID-19: a policy maker’s handbook for more resilient systems. Paris: OECD Publishing, 2020. Disponível em: https://www.oecd-ilibrary.org/education/lessons-for-education-from-covid-19_0a530888-en. Acesso em: 29 Abril 2021.

Desde o início da pandemia da COVID-19, a relação entre avaliação e a aprendizagem voltou a receber atenção, tanto da comunidade escolar quanto da sociedade em geral, exatamente porque é por meio dela – da avaliação – que conseguimos visualizar não somente se, mas também o quanto, o aluno se desenvolveu e aprendeu. Buscamos, então, perspectivas que nos ajudem a entender essa relação e a estabelecer maneiras de concretizá-la em benefício dos alunos, dos professores e da escola, indo além da verificação dos conteúdos escolares e ampliando para a obtenção de um panorama das condições socioemocionais dos alunos.  

Uma dessas perspectivas é a oferecida pela professora Lorna Earl, da Universidade de Toronto, Canadá. Ela divide a avaliação em três propósitos[2]: avaliação da aprendizagem, avaliação para aprendizagem, e avaliação como aprendizagem. A primeira, avaliação da aprendizagem, é aquela que utilizamos como confirmação do que os alunos sabem, como evidência de que atingiram requisitos exigidos, ou para classificação em relação aos outros alunos; a segunda – avaliação para aprendizagem – é aquela que fornece informações aos professores para que possam modificar ou redirecionar seu plano de ensino de forma a atender as necessidades individuais e coletivas de aprendizagem de seus alunos; a terceira – avaliação como aprendizagem – é considerada parte da anterior e enfatiza o uso da avaliação como suporte para desenvolver a metacognição, ou seja, a capacidade de regular e monitorar o próprio desenvolvimento intelectual, e o pensamento crítico do aluno com respeito à avaliação e ao seu próprio aprendizado.

[2] EARL, Lorna. Assessment as learning: using classroom assessment to maximise student learning. Thousand Oaks, CA: Corwin Press, 2003.

Essa perspectiva faz com que a avaliação se transforme na grande aliada da comunidade escolar para enfrentar o desafio de amenizar a defasagem de aprendizagem ocasionada pela pandemia da COVID-19. E se forem necessárias quaisquer mudanças relativas à avaliação, que estejam firmemente embasadas na visão de que todos os alunos, indistintamente, podem aprender, e de que é papel do professor e da escola buscar diferentes formas para assegurar que o aprendizado aconteça!

Profa Dra Gladys Quevedo-Camargo

Docente da área de Licenciatura - Inglês
Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução - LET
Instituto de Letras
Universidade de Brasília - UnB

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no google
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *