Rotinas de pensamento e as funções executivas – Sphere | International School

Rotinas de pensamento e as funções executivas

Criar  ambientes de engajamento, contextualização e ampliação do pensamento dos alunos é uma tarefa ao mesmo tempo desafiadora e instigante para professores dos diversos ciclos de ensino. Nessa direção, o uso de rotinas de pensamento pode ser uma valiosa estratégia didática. As rotinas de pensamento são estratégias simples, utilizadas para dar suporte ao pensamento, projetadas para serem inseridas na prática contínua do professor em sala de aula. O objetivo destas rotinas é identificar os tipos de pensamento que são essenciais para ajudar o entendimento, como saber observar de perto e descrever o que se vê, construir explicações e interpretações, raciocinar com evidência, fazer conexões, considerar diferentes pontos de vista e perspectivas, capturar significado e tirar conclusões, pensar e fazer perguntas, descobrir a complexidade e aprofundar o raciocínio. 

À medida em que os alunos se tornam mais conscientes de seu próprio pensamento e das estratégias para aprender, conseguem compreender seus processos cognitivos e passam a ter habilidade de controlar, monitorar e organizar ideias e ações para alcançar seus objetivos. 

Neurociência aplicada à educação

Estudos na área da neurociência aplicada à educação têm revelado importantes fundamentos a serem considerados para o enriquecimento das experiências de aprendizagem. Para introduzir essa discussão, vamos conhecer algumas funções do cérebro e suas conexões com o desenvolvimento e a aprendizagem. O cérebro é o órgão responsável pelo armazenamento de informações e a compreensão de sua estrutura biológica e funcional, como as funções executivas e seus respectivos impactos na aprendizagem, torna-se importante ferramenta para a educação. O córtex pré-frontal é o local onde se localizam as principais estruturas do substrato neurológico das funções executivas, e é a última região cerebral a atingir a maturação. A mielinização (maturação) dos neurônios deste circuito se inicia nos primeiros anos de vida e continua até o início da vida adulta, quando a estrutura atinge sua maturidade, ou seja, elas dependem de tempo para o desenvolvimento e a criança ou adolescente obterá melhores desempenhos relacionados às funções executivas quando continuamente estimuladas intencionalmente ao longo dos anos escolares.  

As funções executivas referem-se a uma família de processos mentais necessários em situações que exigem concentração e aprendizagem. As principais habilidades que integram as funções executivas são: o controle inibitório (conseguir evitar algo que se quer muito), a memória de trabalho (capacidade de reter a informação e trabalhar mentalmente com ela) e a flexibilidade cognitiva (alternar o pensamento). Elas são responsáveis por exercer influências no aprendizado e também na regulação emocional do indivíduo, direcionando comportamentos para alcançar determinado objetivo, criar estratégias, avaliá-las quanto à eficiência e resolver problemas.  

O controle inibitório envolve a capacidade do indivíduo de controlar a atenção, o comportamento, os pensamentos e as emoções de uma pessoa para anular uma forte inclinação em fazer algo, para que consiga se conduzir ao que é mais apropriado ou necessário em determinado momento. Sem o controle inibitório, não seria possível o controle de impulsos, sejam eles de pensamento ou reação a estímulos de um ambiente. 

A memória de trabalho envolve sustentar a informação em mente e trabalhar com ela, dando sentido a tudo o que aconteceu e permitindo relacionar a informação ao que vem depois. 

Já a flexibilidade cognitiva é uma habilidade que amadurece mais tardiamente já que depende das outras habilidades. Entre  7 a 9 anos de idade, as crianças conseguem alternar de forma flexível o pensamento, desde que trabalhada com intencionalidade ao longo dos anos da educação infantil. 

 Conhecendo as funções executivas e suas habilidades, como o professor pode criar ambientes e experiências de aprendizagem capazes de ampliar as oportunidades de desenvolvimento de seus alunos? Em minha prática como professora do Year 5 da Sphere International School pude observar que as rotinas de pensamento dialogam harmoniosamente com o trabalho voltado ao desenvolvimento das funções executivas.     

Compreende-se que as funções executivas podem e devem ser treinadas ao longo da infância e adolescência, garantindo o completo amadurecimento na fase adulta e as rotinas de pensamento trazem uma série de oportunidades para tal prática.  Em cada parte de uma rotina proposta, o aluno é estimulado a ter um tipo de pensamento ou ação, devendo obedecer a sua estrutura e tempo previamente determinado pelo professor moderador. Com isso torna-se uma ótima ferramenta para a prática das funções executivas no dia a dia escolar.  

Três exemplos de Rotinas de Pensamento

Destaco aqui três rotinas de pensamento que podem ser usadas em salas de aula de escolas regulares ou bilíngues: See, Think, Wonder;  Think, Puzzle, Explore e Think, Pair, Share. 

No início da rotina See, Think, Wonder, os alunos passam alguns minutos observando uma obra de arte, imagem ou algum tipo de artefato (See). Olhar em silêncio oferece a oportunidade de maior atenção, observando plenamente antes de fazer interpretações (Think). Já a etapa final da rotina (Wonder) garante que os alunos tenham tempo para assimilar novas informações por meio de observações cuidadosas, pensar e sintetizar essas informações. Nesta rotina pode-se observar e trabalhar o controle inibitório (conter o impulso de falar para expor suas ideias), a flexibilidade cognitiva (alternar o tipo de pensamento solicitado nas etapas), bem como a memória de trabalho (sucesso no desempenho de cada etapa).  

A rotina Think, Puzzle, Explore convida os alunos a se conectarem com seus conhecimentos prévios, a serem curiosos e a se planejar para uma investigação independente ou em grupo. Ela consegue fornecer ao professor uma noção da compreensão atual dos alunos sobre um tópico e, assim, influenciar a forma e a estrutura do ensino e aprendizagem subsequentes. Nela consegue-se observar e desenvolver o controle inibitório através do tempo de espera para tomar turno na discussão, a flexibilidade cognitiva com a produção da ação esperada e a memória de trabalho quando demonstram autonomia nas etapas.  

A rotina Think, Pair, Share serve para organizar as conversas em pares de alunos, na qual precisam revezar, ouvir com atenção e fazer perguntas uns aos outros. Uma rotina simples que incentiva os alunos a pensar sobre algo, como um problema, questão ou tópico, para conseguir articular seus pensamentos. Mais uma vez é possível trabalhar as funções executivas – controle inibitório, flexibilidade cognitiva e memória de trabalho – e promover a compreensão por meio de raciocínio e explicações ativas.  

O uso intencional das rotinas de pensamento promove o desenvolvimento das funções executivas, bem como o engajamento, a compreensão e a independência no processo de aprendizagem. Quando os alunos participam das rotinas com frequência, passam a ter autonomia, compreendendo os passos necessários e seus objetivos; conseguem fazer escolhas das melhores rotinas para utilizarem de acordo com o que gostariam de alcançar e se tornam metacognitivos, ou seja, aprendem a aprender.  

Bianca Duarte Nunes

Licenciada em pedagogia e letras (inglês e português) pela Universidade Paulista e especialista em Neurociência na Escola pelo Instituto Singularidades. Trabalha na Sphere International School desde 2011 como professora dos Anos Iniciais e foi coautora dos materiais didáticos Sphere para o Year 2. Estudou na Harvard Extension School, cursando English as a Second Language e Communication in Business.

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no google
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *