A Formação de Professores para a Educação Bilíngue: O que dizem as Diretrizes Nacionais para a Educação Plurilíngue? – Sphere | International School

A Formação de Professores para a Educação Bilíngue: O que dizem as Diretrizes Nacionais para a Educação Plurilíngue?

Quando consideramos os desafios de formar jovens para um futuro cada vez mais superdiverso e multilíngue, não podemos deixar de compreender também as necessidades formativas dos professores que atuam nesse contexto. Quais concepções de língua e linguagem embasam sua prática? Como o currículo bilíngue pode ser organizado visando a ampliação do repertório bi/multilíngue dos alunos? Como criar engajamento e desenvolver mobilidade em diferentes contextos?

Neste texto, vamos discutir brevemente algumas orientações apresentadas pelas novas Diretrizes Curriculares Nacionais para a oferta de Educação Plurilíngue, com foco na formação de professores e como as escolas podem se preparar para a oferta da Educação Bilíngue em consonância com essa regulamentação. Também, salientaremos a necessidade de uma formação de professores voltada a um processo colaborativo, que integre as equipes que atuam nas diferentes línguas da escola e que possibilite que os docentes reconheçam a identidade bilíngue de seus alunos.

É importante lembrar que o Brasil é um país multilíngue, em que circulam diversas línguas, incluindo 274 línguas (IBGE, 2010), duas línguas de sinais oficiais e diferentes línguas de comunidades de imigrantes. Sabemos também que a Educação Bilíngue acontece em diferentes contextos e para diferentes propósitos. Nas últimas décadas, vimos o crescimento acelerado da Educação Bilíngue de línguas de prestígio, ou seja, aquela que oferece instrução na língua nacional e em outra de prestígio internacional, nesse caso, a língua inglesa.

A demanda por escolas bilíngues português-inglês impulsionou também a criação de diferentes modelos de escolas bilíngues, cada qual com diferentes concepções e características. Nesse cenário, a ausência de orientações nacionais para escolas bilíngues motivou a formulação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a oferta de Educação Plurilíngue, aprovadas em julho de 2020, mas que ainda aguardam homologação. As Diretrizes estabelecem normativas específicas para:

  • – Escolas Bilíngues
  •  
  • – Escolas com Carga Horária Estendida em Língua Adicional
  •  
  • – Escolas Brasileiras com Currículo Internacional
  •  
  • – Escolas Internacionais

 

Em cada caso, as Diretrizes apresentam orientações acerca de carga horária, formação de professores, organização curricular e avaliação. Aqui, vamos destacar alguns pontos que integram o eixo da formação docente.

Segundo o documento (Capítulo III, art. 10), para atuar em língua adicional na Educação Infantil e no Ensino Fundamental Anos Iniciais, o professor deve:

  1. a) ter graduação em Pedagogia ou em Letras;
  2.  
  1. b) ter comprovação de proficiência de nível mínimo B2 no Common European Framework for Languages (CEFR); e
  2.  
  1. c) ter formação complementar em Educação Bilíngue (curso de extensão com no mínimo 120 (cento e vinte) horas; pós-graduação lato sensu; mestrado ou doutorado reconhecidos pelo MEC).
  2.  

Para atuar como professor em língua adicional no Ensino Fundamental – Anos Finais e Ensino Médio, o professor deve:

  1. a) ter graduação em Letras ou, no caso de outras disciplinas do currículo, licenciatura corresponde à área curricular de atuação na Educação Básica;
  2.  
  1. b) ter comprovação de proficiência de nível mínimo B2 no Common European Framework for Languages (CEFR); e
  2.  
  1. c) ter formação complementar em Educação Bilíngue (curso de extensão com no mínimo 120 (cento e vinte) horas; pós-graduação lato sensu; mestrado ou doutorado reconhecidos pelo MEC).
  2.  
  3. Ainda no capítulo sobre formação de professores, as Diretrizes apontam que, a partir de 2022, os cursos de graduação em Letras e Pedagogia devem incluir a licenciatura em “Pedagogia para Educação Bilíngue” e “Letras para Educação Bilíngue” para aqueles que desejam atuar em escolas bilíngues.
  4.  

As novas Diretrizes indicam alguns referenciais que devem ser observados, principalmente quanto à licenciatura, proficiência linguística e formação complementar dos professores que atuam em língua adicional. No entanto, o que cabe explorar de forma mais detalhada são as atividades formativas que valorizam a integração bilíngue e a formação de todos os professores, tanto os que atuam em inglês como em português.

Compreender a integração bilíngue pressupõe uma mudança de paradigma. Significa conceber língua e  linguagem de modo mais dinâmico e interconectado, em que os sujeitos bi/multilíngues estão constantemente ampliando seu repertório por meio de experiências diversificadas vivenciadas em suas duas ou mais línguas. Na visão de língua como repertório, segundo a acadêmica Ofelia García, as pessoas usam todos os seus recursos linguísticos e semióticos disponíveis para construir significado com o outro. Ou seja, mesmo quando se aprende em um ou outro idioma, um “fluxo” bi/multilíngue acontece no interior de cada um. Por esse motivo, compreender os processos de aprendizagem e desenvolvimento de alunos bilíngues é responsabilidade de todos os professores das escolas bilíngues, não apenas daqueles que atuam em língua adicional.

Pensando nisso, acrescentamos aqui duas premissas para a formação de professores:

  1. a)Incluir todos os professores da escola nos processos formativos;
  2.  
  3. b)Alocar horários de planejamento colaborativo semanais entre os professores que atuam nas diferentes línguas da escola;

O planejamento colaborativo deve contemplar não apenas a divisão de tarefas, mas a criação de experiências de aprendizagem diversificadas para a mobilização do repertório linguístico dos alunos de modo integrado. O diálogo entre professores sobre como trabalhar o currículo, de modo que uma língua amplie e aprofunde a outra é fundamental nas escolas bilíngues. Também, é essencial que os professores reflitam juntos sobre os resultados de aprendizagem, os percursos e desafios de cada aluno.

A colaboração e a formação contínua de professores são dois pilares essenciais da Sphere International School. As perspectivas pedagógicas e linguísticas que fundamentam a prática em sala de aula são constantemente discutidas e ampliadas, a partir de diferentes atividades e eventos formativos. O Sphere International Seminar  é um exemplo disso, trazendo palestrantes nacionais e internacionais, além de oficinas de boas práticas, facilitadas por educadores e especialistas de diferentes escolas bilíngues e internacionais. Este ano, o engajamento é o fio condutor da programação, que explora temas como a aprendizagem investigativa, o pensamento visível e o service learning. 

Em cada uma dessas áreas, o planejamento colaborativo e a integração entre os professores que atuam nas diferentes línguas da escola favorecem a expansão das vivências bilíngues e a constituição da mobilidade dos alunos em diferentes contextos, dentro e fora da escola.

Uma equipe pedagógica engajada e inovadora requer um processo formativo igualmente engajado e aberto a novas perspectivas. Por isso, as escolas bilíngues precisam ir além, devem abrir espaços para a discussão crítica sobre a formação integrada de seus professores bi/multilíngues.  

Autora

Susan Clemesha

Susan Clemesha

Susan Clemesha é bacharel em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo e mestre em Linguística Aplicada pela PUC-SP. Diretora acadêmica da rede Sphere International School, atua na área de formação de professores e desenvolvimento de currículo para escolas bilíngues (português e inglês) e internacionais. Professora de pós graduação em Educação Bilíngue, integra o grupo de pesquisa LACE (Linguagem em Atividade no Contexto Escolar) e GEEB (Grupo de Estudos em Educação Bilíngue), vinculados à PUC-SP.

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