A liberdade para pensar sobre o mundo das palavras – Sphere | International School

A liberdade para pensar sobre o mundo das palavras

No dia 14 de novembro comemora-se o dia Nacional da Alfabetização, uma data que destaca a importância do direito à educação para todos.

Um mundo de palavras

Desde o nascimento, tudo o que a criança vive e conhece está permeado por palavras. Primeiro ela aprende por meio das interações verbais com os familiares que lhes ensinam as primeiras palavras, cantam as primeiras músicas e apresentam as primeiras histórias.

Textos e Contextos

Ainda no ambiente familiar, a criança bem pequena começa a reproduzir o que aprende por meio das diversas linguagens às quais é exposta. Quando ela começa sua vida escolar, esse universo das diversas linguagens vai se ampliando. Ela tem contato com diferentes gêneros textuais e portadores de textos, e descobre outras formas de se comunicar, de se expressar e de aprender. Ela passa a compreender que as palavras têm contextos e significados. Ela entende que cada tipo de linguagem comunica algo específico, que um conto é diferente de uma parlenda, que receita é diferente de rima, mesmo antes de saber ler ou escrever.

Liberdade para pensar sobre a escrita

Na Sphere, o trabalho realizado com o letramento faz parte da essência do trabalho docente. O educador deve ter clareza da importância de dar liberdade para a criança pensar sobre a escrita.

Segundo a psicóloga, pesquisadora e escritora argentina Emilia Ferreiro, “quando uma criança escreve tal como acredita que poderia ou deveria escrever certo conjunto de palavras, está oferecendo um valiosíssimo documento que necessita ser interpretado para ser avaliado. Aprender a lê-las, interpretá-las é um longo aprendizado que requer uma atitude teórica definida.” É essa liberdade que dá à criança a possibilidade de experimentar, explorar, refletir, criar hipóteses sobre seus registros, tornando a aprendizagem muito mais significativa e entendendo que a aquisição da leitura e da escrita é um processo e que todo o ambiente escolar precisa ser um rico mundo letrado.

Alfabetização como um processo pensante

Ferreiro (1999, p.47) afirma que “a alfabetização não é um estado ao qual se chega, mas um processo cujo início é na maioria dos casos anterior à escola e que não termina ao finalizar a escola primária”.

E assim a criança vai sendo apresentada ao mundo das palavras impressas. Muitas vezes de maneira informal quando folheia um livro ou revista, quando observa uma placa na rua, quando vai ao supermercado e lê os rótulos nas embalagens. E de maneira formal quando o adulto apresenta a literatura, por exemplo.

No processo de alfabetização é preciso que os alunos tenham oportunidades para irem além da simples codificação/decodificação de símbolos e caracteres. Devem passar por um processo de “compreensão/expressão de significados do código escrito” (Soares, 2013, p.16).

Psicogênese da língua escrita

As pesquisas realizadas por Emília Ferreiro e Ana Teberosky sobre a “Psicogênese da Língua Escrita”, publicadas no Brasil em 1984, mostraram que as crianças constroem diferentes ideias sobre o sistema de escrita antes mesmo de compreenderem o sistema alfabético. Essas hipóteses se desenvolvem quando a criança tem a oportunidade de interagir com diferentes portadores de textos, tais como livros, jornais, revistas, leitura de placas, para assim compreender a função social da escrita.

Segundo Ferreiro e Teberosky (1999), ao tentar compreender o funcionamento da escrita, a criança cria suas próprias hipóteses. Descrevemos essas hipóteses e suas características a seguir:

Segundo a especialista em alfabetização Telma Weisz, o papel do professor é ser um “par mais experiente” que estimula, questiona e valida a informação que circula no cotidiano escolar.

Em uma sala, todos estão em atividade intelectual, todos falam, todos elaboram ideias e constroem conhecimento, não ao mesmo tempo, mas todos têm a oportunidade de expressar o que pensam.

Desvendando os mistérios da palavras

Quando a criança bem pequena, que ainda não está alfabetizada, descobre a escrita nos livros, ela é tomada pelo interesse e curiosidade em tentar entender o que está por trás de todos aqueles símbolos. Quando o adulto lê em voz alta, passando o dedo sob as palavras, é um momento mágico para os alunos que estão se alfabetizando. É como se todo aquele emaranhado de letras ganhasse vida e os mistérios fossem, aos poucos, se desvendando.

Práticas de leitura

Na escola, a prática da leitura precisa ser diária e esses momentos devem ser bem planejados. A preparação começa na escolha do título do livro paradidático, pois é de extrema importância levar em conta a faixa etária das crianças que ouvirão a história, o que pode implicar no foco e no tempo de concentração. Criar um mistério sobre o livro a ser lido, mostrando a capa e deixando que elas analisem, argumentem, reflitam, façam perguntas, tirem conclusões a partir do que veem, além de estimular a criatividade, torna visível o pensamento das crianças. O professor precisa transformar a hora da história em um momento mágico e encantador. Seja com livros, fantoches ou outros materiais, todo o processo precisa ser planejado e organizado com antecedência. O espaço de escuta precisa ser silencioso e acolhedor, para que elas possam se concentrar e apreciar a história contada.

Sem dúvida, a literatura é central ao processo de alfabetização, mas não podemos deixar de observar como a língua e a linguagem são utilizadas nas diversas práticas sociais cotidianas e escolares. Na educação bilíngue, quando as crianças aprendem por meio de duas ou mais línguas, naturalmente realiza transferências entre elas, em um processo que também pode e deve ser “problematizado”. Estimular o pensar sobre línguas, acolher e dar visibilidade às hipóteses criadas por cada aluno é essencial para um ambiente que valoriza a identidade e as experiências vividas por cada criança.

Esse texto foi adaptado do Guia de Literatura: Educação Infantil e Ano Iniciais, Sphere International School, 2020.

 

Referências:

FERREIRO, E.; TEBEROSKY, A. A psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artimed, 1999.

 

SOARES, M. Alfabetização e letramento. São Paulo: Contexto, 2013.

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